A tecnologia tem se tornado uma importante aliada da conservação marinha. Na Bacia de Santos, a telemetria satelital vem permitindo que pesquisadores acompanhem o caminho percorrido por animais após a reabilitação e monitorem baleias e golfinhos em alto-mar, reunindo informações que ajudam a compreender o comportamento dessas espécies, identificar áreas importantes para sua sobrevivência e fortalecer ações de preservação da biodiversidade.
Utilizada em projetos como o Programa de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) e o Projeto de Monitoramento de Cetáceos da Bacia de Santos (PMC-BS), a tecnologia utiliza transmissores instalados nos animais para enviar informações via satélite. A partir desses dados, os pesquisadores conseguem acompanhar deslocamentos, rotas migratórias, profundidade dos mergulhos e até características ambientais encontradas ao longo do percurso.
Para Andrea Maranho, coordenadora-geral do Trecho 09 pelo Instituto Gremar, a grande vantagem da telemetria é permitir que o monitoramento continue mesmo quando os animais deixam a costa.
“Grande parte da vida das espécies marinhas acontece longe da observação direta. Com a telemetria, conseguimos entender para onde esses animais vão após a soltura, quais áreas utilizam para alimentação e descanso e identificar padrões de comportamento e uso do habitat.”
No PMP-BS, a tecnologia passou a ser incorporada ao monitoramento de animais reabilitados em 2025. O objetivo é acompanhar o processo de reintegração desses indivíduos ao ambiente natural e avaliar a efetividade das ações de resgate, reabilitação e soltura.
Segundo André Barreto, coordenador-geral do PMP-BS na área entre Santa Catarina e Paraná, os transmissores representam um avanço importante para esse acompanhamento.
“Enquanto as marcações tradicionais mostram apenas o ponto de soltura e uma eventual recaptura, os transmissores satelitais registram continuamente as posições dos animais e permitem avaliar o sucesso da reintrodução da megafauna ao ambiente natural.”
Monitoramento
Até o momento, animais como os lobos -marinhos antártico e subantártico, e o elefante-marinho-do-sul receberam os transmissores. Com isso, o monitoramento gera mais segurança e bem-estar animal, visto que, antes da ação, todos os animais passam por uma série de avaliações clínicas e sanitárias para verificar se estão aptos tanto para o procedimento quanto para o retorno à natureza.
Os equipamentos são instalados por equipes treinadas, que utilizam técnicas específicas para cada espécie e materiais apropriados, sem procedimentos invasivos.
“Os transmissores possuem peso reduzido e representam apenas uma pequena fração do peso corporal do animal. O objetivo é garantir que o equipamento não interfira em seus movimentos, alimentação ou comportamento natural”, explica Andrea.

André Barreto acrescenta que, no caso dos pinípedes, os transmissores são fixados sobre a pelagem utilizando adesivos especiais, sem contato com a pele do animal. Como essas espécies realizam a troca anual de pelos, o equipamento se desprende naturalmente após esse período.
Além disso, antes da instalação, são avaliadas as condições da pelagem e o estágio de muda. Caso exista qualquer possibilidade de perda precoce do transmissor ou risco ao animal, o equipamento não é instalado.
Muito além de indicar a localização dos animais, a telemetria fornece dados que ajudam a proteger a biodiversidade, já que entregam um conjunto de informações que auxiliam os pesquisadores a compreenderem como diferentes espécies utilizam o ambiente marinho.
Os transmissores permitem registrar velocidade de deslocamento, profundidade dos mergulhos, permanência em determinadas regiões e parâmetros ambientais, como temperatura da coluna d’água. Quando essas informações são integradas a dados de oceanografia, correntes marinhas e batimetria, torna-se possível identificar áreas prioritárias para alimentação, descanso, reprodução e deslocamento.
“Ao compreender melhor quais habitats são mais utilizados pelas espécies, conseguimos direcionar esforços para proteger regiões estratégicas para sua conservação”, destaca Andrea.
Esses dados também contribuem para subsidiar políticas públicas, apoiar o planejamento espacial marinho e avaliar se os animais reabilitados conseguem retornar com sucesso ao ambiente natural.
Resultados
Os primeiros resultados do monitoramento já reforçam a importância da ferramenta para ampliar o conhecimento sobre a fauna marinha. Entre os casos acompanhados pelo Instituto Gremar está o de um elefante-marinho-do-sul jovem, cujo transmissor permaneceu ativo por 29 dias após a soltura.
Durante esse período, foi possível acompanhar seu deslocamento em direção ao sul e registrar mergulhos em águas profundas, comportamento esperado para a espécie. As informações contribuíram para compreender melhor o processo de adaptação do animal após a reabilitação e forneceram evidências sobre a efetividade das ações desenvolvidas pela instituição.
Outros animais também mostraram resultados, como é o caso de elefantes-marinhos reabilitados. Um deles seguiu pela parte mais interna da plataforma continental, chegando a permanecer dois dias na costa uruguaia antes de continuar sua viagem. Os últimos registros mostraram o animal a menos de 750 quilômetros da Península Valdés, na Argentina, uma das principais colônias reprodutivas da espécie na América do Sul.
Outro exemplar apresentou comportamento diferente, deslocando-se por águas mais profundas próximas à quebra da plataforma continental. Os dados coletados durante esse acompanhamento ainda estão sendo analisados.
Mais acompanhamentos
Além do monitoramento de animais reabilitados, a telemetria satelital utilizada pelo PMC-BS acompanha baleias e golfinhos em ambiente natural. Ao longo de mais de uma década, a tecnologia permitiu registrar padrões de movimentação de diversas espécies ampliando o conhecimento sobre rotas migratórias, áreas de alimentação, reprodução e uso do habitat.
As campanhas são realizadas por equipes especializadas e seguem protocolos rigorosos de segurança e bem-estar animal. Diferentemente dos pinípedes reabilitados, cujos transmissores são instalados no momento da soltura, os cetáceos não são capturados para receber os transmissores. Dependendo do tipo de equipamento, as marcações são feitas por meio de sistemas implantáveis ou transmissores fixados temporariamente por ventosas, durante aproximações controladas realizadas por pesquisadores embarcados.
As informações obtidas também ajudam a compreender a interação dessas espécies com atividades humanas, como navegação, pesca e operações offshore, contribuindo para o planejamento de medidas de conservação.
Desafios e perspectivas
Apesar dos avanços, a telemetria satelital ainda enfrenta desafios. O alto custo dos equipamentos, a necessidade de equipes altamente especializadas e o número reduzido de animais monitorados tornam importante a continuidade das pesquisas para ampliar a base de informações disponível.
De acordo com André Barreto, outro fator que influencia os estudos é o próprio comportamento das espécies monitoradas.
“Precisaremos de um tempo mais longo e de um número maior de exemplares para compreender qual é o comportamento usual desses animais e ampliar nosso conhecimento sobre as espécies.”
A expectativa é que a evolução tecnológica torne os equipamentos mais acessíveis, resistentes e precisos, permitindo ampliar o monitoramento e integrar essas informações a ferramentas como inteligência artificial e análises espaciais.
Com isso, pesquisadores poderão compreender ainda melhor como os animais utilizam o ambiente marinho e como respondem a fatores como mudanças climáticas, perda de habitat e outras pressões ambientais, fortalecendo as estratégias de conservação da biodiversidade na Bacia de Santos.