Atenção, cuidado, sensibilidade e profundo respeito pela vida. É assim que atuam os profissionais que desempenham a função de tratadores de animais resgatados no Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), desenvolvido pela Petrobras para cumprimento às condicionantes do licenciamento ambiental federal conduzido pelo Ibama.
A rotina envolve cuidados diários, como o preparo da alimentação específica para cada espécie resgatada, controle da qualidade da água, higienização, manutenção dos recintos, assim como a participação em resgates e solturas. “Realizamos também o enriquecimento ambiental, a fim de estimular o comportamento natural das espécies, e auxiliamos a equipe médica veterinária na rotina clínica”, explica Matheus de Souza Calazange da Motta, do CRD de Maricá (RJ), no Trecho 15 do PMP-BS, executado pela Econservation.
A atividade inclui observar os animais com o objetivo de detectar possíveis alterações físicas ou comportamentais, permitindo identificar sinais de melhora ou de atenção. “Verificamos se o animal está se alimentando corretamente, se está ganhando peso, se apresenta ferimentos ou algum comportamento fora do habitual. No caso dos pinguins, por exemplo, é importante observar se o animal está com dificuldade de se manter na superfície da água, o que pode indicar pouca impermeabilização das penas”, conta Vanessa Souza, da R3 Animal Trecho 3.

Cuidado e integração entre as equipes
Os cuidados prestados pelos tratadores variam de acordo com o tipo de animal e seu estado de saúde. Entre as diferentes espécies estão tartarugas, mamíferos marinhos e aves marinhas, como fragatas, atobás e pinguins.
Cada espécie tem suas particularidades e exige uma abordagem específica para garantir a segurança tanto do animal quanto da equipe. “Um dos principais desafios é realizar a contenção dos animais de forma segura. Cada espécie apresenta suas próprias dificuldades: aves como gaivotas e pinguins, apesar de pequenas, podem bicar — e uma bicada geralmente indica que o animal não foi contido corretamente. Já os lobos-marinhos são maiores e fortes, o que demanda a participação de várias pessoas para auxiliar, buscando realizar o procedimento com agilidade para minimizar o estresse do animal”, ressalta Vanessa.
Todo o cuidado é realizado de forma integrada junto às equipes de campo, que informam os dados do local e as condições em que os animais foram resgatados. “Com as informações deles, podemos ficar preparados para dar o melhor atendimento aos animais”, conta Jefferson Claudino Ramos, do CRD de Maricá (RJ).

Ele lembra com orgulho de uma tartaruga-cabeçuda que ajudou a cuidar. “Ela chegou muito debilitada, sendo necessário preparar papas para alimentá-la e contar com cinco pessoas auxiliando durante o manejo. Até que chegou um momento em que, depois de muitas tentativas, coloquei um peixe na boca dela e ela começou a comer. Foi a maior alegria, para todos nós, ver um animal daquele tamanho, em 10 dias, ganhar nove quilos e conseguirmos reabilitar e fazer a soltura”.
Para Ismaik Scottini, que atua no Trecho 1, realizado pela Udesc, em Santa Catarina, um dos maiores desafios técnicos enfrentados no manejo é lidar com animais muito pequenos e delicados, como algumas aves costeiras, tipo a Batuíra-de-bando, que exige um manejo mais apurado para evitar estresse ou agravamento do quadro. “Nessas situações, até a forma de segurar, o tempo de manuseio e a administração de fluidos precisam ser feitos de maneira muito cuidadosa. As aves oceânicas também são um desafio, pois muitas chegam extremamente debilitadas e sensíveis. E quando se trata de cetáceos, como a toninha, o esforço é ainda mais intenso e envolve toda a equipe, já que são animais muito frágeis e complexos de manter estáveis”, conta.

Contribuição para a conservação da fauna marinha
No dia 19 de novembro, é comemorado o Dia do Tratador, profissional técnico e paciente que, além do cuidado direto da convivência diária com os animais, contribui para a geração de dados científicos e conservação da fauna marinha.
Ao observar padrões comportamentais, que ajudam a entender o estado geral das espécies, o tratador não apenas colabora para que histórias de resgate possam terminar com um retorno seguro à natureza, como também amplia o conhecimento científico sobre a fauna marinha. Cada reabilitação concluída e cada soltura bem-sucedida representam uma contribuição concreta para a conservação.

“A partir das observações, fornecemos feedbacks qualitativos e quantitativos sobre o estado dos animais, gerando dados importantes que contribuem para estudos científicos e para a melhoria contínua dos protocolos de manejo e reabilitação. Apesar de muitas vezes o trabalho do tratador ser associado apenas à limpeza e à alimentação, ele vai muito além disso. Estamos próximos dos animais diariamente, conhecemos seus comportamentos e individualidades, e temos um papel essencial em garantir qualidade de vida durante a reabilitação, contribuindo para que eles fiquem bem e tenham condições de retornar à natureza”, conclui Vanessa.