Resgates de animais alertam sobre o descarte inadequado de lixo

Atualizado em 15/05/2026

Postado em 15/05/2026

Copiar
texto

Texto copiado! Texto copiado!
-->

No Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), os resgates de tartarugas, aves e mamíferos marinhos carregam histórias que evidenciam como atitudes simples, como descartar, reutilizar ou reciclar corretamente o lixo , podem contribuir para a preservação da vida marinha.

Neste 17 de maio, Dia Mundial da Reciclagem, os profissionais atuantes no PMP-BS, projeto desenvolvido pela Petrobras para atendimento às condicionantes do licenciamento ambiental federal conduzido pelo Ibama, destacam a importância da conscientização sobre os impactos resultantes do descarte inadequado de lixo. O lixo disposto de forma inadequada pela população pode ser transportado pelo vento ou pelas águas das chuvas diretamente para o mar ou cair em rios e canais, também chegando às praias, o que representa riscos significativos a diversas espécies marinhas.

Segundo Tiffany Emmerich, médica veterinária da Univali, que atua no Trecho 4 do PMP-BS,   em Santa Catarina, o plástico é o resíduo gerado pela ação humana mais encontrado em animais marinhos. “Já registramos desde sacolas, embalagens, tampas de caneta e de garrafa Pet, balões de festa, botões, canudos, lacres de alimentos embutidos, até resíduos menores, que classificamos como microplástico. Os animais ingerem estes itens por estarem disponíveis no seu ambiente, muitas vezes mimetizando o seu alimento natural, como as algas e águas vivas, ou por atraírem algumas espécies devido a sua cor e cheiro, como no caso de aves da Ordem Procellariformes, que têm o olfato bem desenvolvido”, explica.

A médica veterinária e responsável técnica do Instituto Biopesca, Vanessa Lanes Ribeiro, que atua no Trecho 8   do PMP-BS, no Litoral Sul de São Paulo, explica que aproximadamente 80% das tartarugas-verdes (Chelonia mydas) apresentam resíduos plásticos no trato gastrointestinal durante o exame de necropsia. “A presença desses resíduos pode causar lesões, mas a maioria passa pelo estômago e intestino e são eliminados, ou seja, é um fator debilitante, mas muitas vezes não a causa direta de óbito”, diz.


Entre os resíduos encontrados, estão lacres, embalagens, cordas, linhas de pesca e anzóis. “As interações com pesca são comuns, porém são confirmadas quando é possível ver a evidência clara do petrecho de pesca ou uma lesão característica dele associada a outras alterações em órgãos devido aos distúrbios circulatórios associados a asfixia ou afogamento”, ressalta Vanessa.

Impactos na saúde dos animais

A coordenadora veterinária Renata Karina Marconi Marcançoli, da empresa Econservation, que atua pelo PMP-BS no Estado no Rio de Janeiro, explica que a ingestão de resíduos causa nos animais uma sensação de falsa saciedade, levando a um quadro de enfraquecimento extremo do organismo e doenças secundárias associadas. “Há também a possibilidade de perfuração de alças intestinais e órgãos internos, causando quadros de septicemia. A ingestão de anzol, tanto pelas aves quanto pelas tartarugas, pode levar a lesões sérias e cruentas em mucosas, cavidade oral, esôfago, onde muitas vezes os animais acabam não resistindo a procedimentos cirúrgicos para a retirada dos petrechos, em razão da gravidade das lesões”, diz a especialista, ressaltando que algumas substâncias químicas dos plásticos mimetizam, bloqueiam ou alteram a produção natural de hormônios, podendo causar infertilidade, deformidades embrionárias e queda no sistema imunológico, o que torna os animais mais suscetíveis a doenças e parasitas.

Além da ingestão de resíduos, algumas interações impedem diretamente a alimentação, como lacres ou outros resíduos presos ao redor do bico em aves ou na região oral de cetáceos, resíduos que se fixam ao corpo do animal ainda jovem, como ocorre em tartarugas, levando à restrição de movimento, ferimentos, infecções secundárias, amputações, limitação do crescimento e deformidades. “Atualmente, estamos reabilitando uma tartaruga-verde (Chelonia mydas) que teve sua anatomia deformada por um pedaço de plástico rígido circular. Acredita-se que o animal tenha se enroscado neste plástico quando mais jovem”, explica Renata.

Tartaruga-verde (Chelonia mydas) que teve sua anatomia deformada por um pedaço de plástico rígido circular.

O médico veterinário Rafael Sardinha, do Instituto de Pesquisas Cananéia (IPeC), responsável pelo PMP-BS no Trecho 7 , reforça que mesmo nos casos em que não há alterações patológicas macroscópicas evidentes, a presença de resíduos no trato digestório representa uma condição não natural, com potencial de causar efeitos cumulativos ao longo do tempo, como a liberação de microplásticos e substâncias tóxicas associadas. “A diversidade dos fragmentos encontrados, incluindo materiais de diferentes origens, línguas estrangeiras e itens com datas de fabricação antigas, evidenciam que esses resíduos permanecem no ambiente marinho por longos períodos e são transportados por grandes distâncias, reforçando o caráter persistente e global desse tipo de impacto”.

Puffinus Puffinus com lacre na cabeça. Foto: Instituto Biopesca.


O que você pode fazer para evitar este problema?

  • Não jogue lixo na rua, em terrenos baldios e nos cursos d’água.
  • Descarte corretamente o lixo, nos dias e horários indicados pela prefeitura municipal.
  • Reduza o uso de itens plásticos de uso único e descartáveis em geral.
  • Se houver iniciativa de reciclagem em seu município, contribua separando os itens recicláveis dos resíduos orgânicos, como restos de comida e papel higiênico, e os entregando.
  • Quando for à praia, leve de volta todo o lixo produzido e não deixe sacolas ou resíduos na areia, pois a maré pode carregá-los para o oceano. Recolha também resíduos encontrados, sempre que possível, contribuindo para a redução do lixo marinho.
     
--:--